Considerações e opinações sobre a sétima arte.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

WHISKY: O SORRISO DE PAPEL

Um sorriso valerá mais que muitas palavras. Quando é sincero revela contentamento ou alegria. Quando se torna um sorriso de papel, frágil, falso, fingido, revela a instabilidade emocional ou social da pessoa que sorri. Whisky, um filme uruguaio de 2004, que (só) estreou esta semana em Portugal, é uma jóia cinematográfica que joga com pequenos pormenores, como por exemplo esse sorriso de papel, que nos presenteia, em tom alegórico, com uma fantástica história humana da vida quotidiana e das suas repetidas particularidades.
Em Whisky, acompanhamos a vida monótona de Marta Acuña, interpretada por Mirella Pascual, e do seu patrão Jacobo Koller, encarnado por André PazosMarta passa a maioria das suas horas a trabalhar na fábrica de meias de Jacobo, compilando todos os seus movimentos num rigoroso ritual sistemático que faz com que os seus dias sejam todos iguais. Jacobo segue o exemplo de Marta. Toma o mesmo pequeno-almoço no mesmo café exactamente às mesmas horas da manhã. Abre a sua fábrica, gere a contabilidade, sempre num esquema quase mecânico, como as máquinas de fazer meias da sua fábrica.
Este carácter da monotonia quotidiana é reforçado, de forma minimamente exemplar, pelos realizadoresJuan Pablo Rebella e Pablo Stoll. A narrativa é montada nesse mesmo esquema de repetições quotidianas, fomentando a ideia da banalidade dos dias de Marta Jacobo. É aqui que reside grande parte da magia desta película. Na forma tão natural e artística que se expõe visualmente e temporalmente este quotidiano “entediante” de Marta e Jacobo.
O ponto de quebra, onde os sorrisos de papel se dão literalmente (mas que no fundo apenas se tornam cada vez mais frágeis), dá-se quando Jacobo propõe a Marta que esta passe por sua esposa durante a visita do seu irmão, Herman Koller, interpretado por Jorge Bolani. É durante esta farsa que a subtileza desta obra cinematográfica mostra o seu valor. Este sorriso fingido, esta farsa conjugal, que deveria ser apenas isso mesmo, representa, contudo, a vida que Jacobo e principalmente Marta desejavam ter. É a vida propriamente dita. Aquela que procura outras emoções, mesmo que sejam simples e não muito complicadas. Aquela vida que procura coisas novas dentro dos outros, quando já só vemos o mesmo dentro de nós. É vida que sai do sistema, nem que seja só um pouco. A sua vida real é que é a verdadeira farsa. A farsa é a sua verdadeira vida. Ou pelo menos a sua utopia.
Apesar de todas estas qualidades artísticas, Whisky não é um filme para todas as audiências. Esta preciosidade uruguaia poderá ser desconsiderada por muitos. Alguns acharão entediante, sem sentido, com pouca acção. Outros dirão que é um filme desprovido de qualquer valor ou conteúdo. A verdade é queWhisky não é um filme para todos. Está cheio de deliciosas particularidades e pormenores artísticos que demonstram, por si só, a sua qualidade enquanto obra de arte. Whisky é filme para ver, observar eentranhar. Não é um filme de sensações imediatas, mas sim de pequenos (grandes) prazeres.
Uma película absolutamente recomendável, que vem enaltecer, mais uma vez, o cinema sul americano. Entristece apenas pela falta de apoio e promoção que este cinema tem no mundo e principalmente em Portugal.

SEM NOME: A TRAVESSIA PARA O OUTRO MUNDO

Procurar um mundo melhor é sempre uma demanda incansável. Para aqueles que vivem em condições precárias, sem muito que possam dizer ser seu, é o único sonho que surge no seu pensamento. Sem Nome (Sin Nombre) retrata essa aventura desventurada dos imigrantes ilegais que procuram ultrapassar as fronteiras mexicanas e entrar num novo mundo, os Estados Unidos da América. Um mundo de oportunidades. Um mundo de sonhos. Cary Fukunaga, o realizador, teve o cuidado de tentar absorver para dentro desta película, não só a ânsia destas pessoas, como todo o sacrifício que lhe é exigido para poderem sonhar com um futuro melhor.
Em sem Nome surge também retrata, em paralelo com a travessia para o outro mundo dos imigrantes, a realidade vivida no mundo da criminalidade e dos gangs organizados mexicanos. Ao longo do filme, acompanhamos Casper, interpretado por Edgar Flores, na sua vida de crime. Casper acaba por arrastarSmiley para essa vida, encarnado por Kristian Ferrer, uma ainda jovem criança que se torna adulto cedo demais. Casper vai acabar por compreender que a irmandade, que é fomentada pelo seu gang, não passa de uma ilusão. O agir desumano da sua chefia é a prova que acaba por chocar Casper e fazer-lo cruzar o seu destino com Sayra, interpretada por Paulina Gaitan, uma jovem que procura passar a fronteira mexicana.
Neste drama mexicano, somos levados para o íntimo da decadência humana, a criminalidade, onde a sobrevivência rege-se pela lei do mais forte. Mas é nessa precariedade de afectos humanos que acaba por surgir, de forma tão natural, a compaixão e o próprio amor, sentimentos que tão bem definem o ser humano. Sem Nome traz essa mensagem. Alerta-nos para o facto que até nos piores cenários, onde o homem se confunde com a besta e rouba, tortura, saqueia, aniquila e mata, existe ainda uma réstia de bondade. Afinal de contas somos todos feitos do mesmo molde.
Este filme independente vem reafirmar o cinema mexicano (apesar da realização ser norte-americana). A sua qualidade é manifesta e inegável. A construção do fluxo narrativo é o seu ponto forte. Apesar do argumento simples, sem um grande climax e surpreendentes reviravoltas, ou mesmo, pensamentos profundos que nos levem para locais rebuscados da nossa mente, esta película constrói cada cena de forma natural e contínua, causando uma óptima “cadência” visual.
Sem Nome é um filme que conta uma história. É uma história cinematográfica. Uma história sobre pessoas. Sobre a sua natureza e sobre os seus sonhos. Sobre as atitudes que os regem perante os seus sonhos. Uma história que deve ser vista com olhos de ver,  tentando compreender a natureza humana. Um filme para amantes da (com)paixão humana, esteja ela onde estiver.




PESADELO EM ELM STREET: MAIS AMBIENTE, MENOS AURA

Estreou no mês passado, em Portugal, o filme Pesadelo em Elm Street (Nightmare on Elm Street) realizado por Samuel Bayer, um remake do clássico filme de terror de 1984 com o mesmo nome e realizado por Wes Craven.
Realizar uma readaptação deste clássico torna-se, logo à partida, uma tarefa ambiciosa, não só pela dificuldade que é manter o nível do original, bem como utilizar as novas tecnologias cinematográficas para criar um ambiente mais moderno e mais real. Bayer e Michael Bay, o produtor, levaram em conta tudo isso. Porém, o remake do clássico ficou aquém das expectativas.
Pesadelo em Elm Street conta-nos a história de um bairro que se desola com a morte de alguns adolescentes. Estes foram assombrados por terríveis sonhos, mesmo antes da sua morte. Um estranho um homem, de chapéu e lâminas na mão, predominou nos seus sonhos. Este psicopatia, de seu nomeFred Krueger, ataca as suas vítimas nos seus próprios sonhos, não deixando margem de escapatória, senão mesmo não dormir.
Apesar da cena inicial ser promissora, onde todos os planos e técnicas de som, bem como a agilidade da montagem, proporcionam um ambiente e uma mística bastante assustadora, o novo filme Pesadelo em Elm Street revela-se como uma desastroso atentado à imagem da mítica personagem Freddy Krueger.Krueger deixa de ser aquele psicótico assassino, com o seu forte sarcasmo e a com sua penetrante e simultaneamente assustadora presença, para se tornar num mero espantalho com garras que, apesar de não quebrar o ambiente de terror, cai na banalidade. Com este readaptação, Freddy Krueger perde a sua aura.
Possivelmente, a grande perda seja mesmo a falta de Robert Englund a interpretar a personagem que o imortalizou, perante um Jackie Earle Haley sem qualquer garra e sem qualquer habilidade em encarnar um vilão num filme de terror como no filme Pesadelo em Elm Street. No Krueger de Haley deixamos de ver um monstruoso psicopata com controle pleno de tudo o que acontece e até dos próprios pensamentos dos jovens adolescentes, para assistirmos a um vilão sem sal e até um pouco frágil.
Além do mais, a forma como a narrativa está construída, apesar das muitas semelhanças com o original, não deixa de conduzir o filme para o género de teenage movie, o que mais uma vez quebra a mística do clássico. As próprias personagens são um pouco enfraquecidas com a fraqueza da narrativa, o que leva, à semelhança da personagem central Fred Krueger, a uma queda na banalidade, dentro do género.
Todavia, o esforço de Bayer e de Bay não foi de todo em vão. Apesar da parcial destruição da aura do clássico Nightmare on Elm Street, o novo Pesadelo em Elm Street proporciona um bom ambiente de terror, causando um razoável leque de sustos à audiência. Este remake não chega aos calcanhares do original, mas constitui-se como uma agradável experiência para os amantes do género, devido ao excelente aproveitamento tecnológico, tanto a nível de imagem, como de som.

A MULHER DO VIAJANTE DO TEMPO: O ETERNO DILEMA

A efemeridade do tempo sempre foi o grande dilema de nós, Homens. O tempo, como coisa incontrolável, sempre nos inquietou. O cinema, como expressão do sentimento do Homem, foi e é usualmente alvo dessa inquietação.  Basta lembrar filmes como Regresso ao Futuro, de Robert ZemickisOs Doze Macacos, de Terry GilliamO Efeito Borboleta, ou mais recentemente, O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. Como lidar com a fugacidade da vida? Como controlar o tempo, fazê-lo recuar ou avançar? Ao longo dos tempos, o nosso imaginário foi sendo preenchido com respostas, ou aparentes soluções, para estas questões, tais como as máquinas do tempo. Aliás, foi a cultura popular dos últimos séculos, com a ‘criação’ das viagens no tempo, que fomentou ainda mais a vontade humana de controlar o tempo. O cinema e a literatura foram os instrumentos dessa mesma cultura.
A Mulher do Viajante do Tempo (The Time Traveler’s Wife), de Robert Schwentke, uma adaptação cinematográfica do romance de Audrey Niffenegger, trata disso mesmo, de reescrever mais uma tentativa de controlo temporal do nosso imaginário, as viagens no tempo. É-nos narrada a história de Henry DeTemble, interpretado por Eric Bana, um homem que desde os 6 anos viaja no tempo, e de como esse seu dom influenciou toda a sua vida. Henry conhece a sua amada Claire Abshire, interpretada por Rachel McAdams, exactamente por causa do seu dom. Todos os seus passos foram já desvendados. As idas ao passado, as idas ao futuro começaram a moldar, naturalmente, o seu mundo, tornando-o completamente descoberto. Henry começa a desenhar a sua vida, não só passada, mas principalmente futura. Henry vê a sua vida ficar pré-destinada, sem livre arbítrio, sabendo sempre o chão que vai pisar.
A Mulher do Viajante do Tempo não é filme inovador. Todos nós já estamos mais que familiarizados com este eterno dilema e a forma como ele pode moldar a vida do Homem. Porém, esta película vem reforçar um ponto de vista algumas vezes ignorado. A verdade é que mesmo viajando no tempo, Henry não consegue mudar o rumo principal da sua história, antes pelo contrário, cada vez mais ela se torna inevitável. E a sua história torna-se somente aquela, por causa do seu dom. Um ciclo temporal determinado. A ideia máxima desta narrativa vem-nos dizer isso mesmo, que tentarmos controlar o tempo, só nos faz desaparecer da vida e determiná-la cada vez mais.
Robert Schwentke fez uma boa adaptação. Não devemos adjectivá-la para além disso, contudo é de facto um trabalho bem feito, no que toca à realização. Trabalha com um tema que, para além de ser bastante recorrente, pode facilmente conduzir o filme para o cliché ou mesmo para o ridículo. Schwentke teve a preocupação de tentar não pisar nenhum desses campos, mas manter uma certa comercialidade cinematográfica. Entre um misto de fastfood fílmica e de obra de arte inquietante, Schwentkeconstruiu algo positivo.
A Mulher do Viajante do Tempo é mais um filme que se junta ao leque de criações culturais que abordam o dilema do tempo, mas que, não assumindo nenhum tipo de vanguardismo, diferencia-se do que até então tem sido feito. Um filme construído para agradar todos, ou quase todos, inserindo algumas questões para fazer pensar.



‘9′: A ANIMAÇÃO COMO EXPERIÊNCIA ALTERNATIVA

9 (Nove) é uma experiência alternativa do cinema de animação de Hollywood. Surge em paralelo à revolução do cinema de animação, feita principalmente pelos estúdios da Pixar, e vem introduzir um novo carácter a esta mesma revolução. Vejo este filme como uma experiência cinematográfica arriscada e de muita audácia por parte do seu realizador Shane Acker. Existe uma grande inovação no que toca ao tipo de estética introduzida à animação e também, no seguimento do novo fluxo dos filmes de animação de Hollywood, uma maturação da temática e do enredo.
Esteticamente, o que vemos em 9 é de lhe tirar o chapéu. Os tons utilizados, as formas das personagens, a envolvência criada para os cenários, todos esses efeitos especiais são usados de forma bastante coerente e proveitosa. Toda a paleta de cores escuras e tons de sépia corroboram com o cenário apocalíptico que é transmitido à audiência. Também a estrutura das personagens, misturando materiais usuais, como se de uma montagem plastica se tratasse, acrescenta uma aura bem especial a toda a essência de 9.
E são também essas personagens o grande sumo desta animação. Apesar de admitir que o texto e o próprio argumento do filme são bastante simplistas e até um pouco clichés, a construção destes 9bonequitos prontos para salvarem o seu mundo tornam a premissa inicial aliciante.
Com este filme, a tendência de madurar o cinema de animação, tornando-o um cinema também para pensar e não só para entreter os olhos, vai ser ainda mais reforçada. A ganância máxima do Homem, o perigo da tecnologia, a força da união, a necessidade de salvar a existência de vida, são todos pontos tocados por 9 (Nove). São 79 minutos que fazem por entreter os olhos e o pensamento.
Como vimos em filmes como UP – Altamente! ou em Wall-e, da Pixar, a necessidade de criar cinema de animação com uma forte moral, com uma mensagem bem implícita para os mais crescidos, tem-se vindo a tornar uma redundância. Positiva, na minha opinião. Esta tendência, que surgiu um pouco como consequência, pelo menos temporal, da introdução do digital no cinema de animação, tem vindo a dar credibilidade ao cinema de animação, já não só como cinema infantil, mas também como forma artística. 9 (Nove) é mais um exemplo disso mesmo. Aliás, é a prova de que a Pixar não estará sozinha nesta caminhada. O objectivo é claro, torna o cinema de animação de Hollywood num cinema que tenha performance tanto comercial e leve, para os mais pequenos, como artística e moralizadora, para os mais graúdos.
Não posso dizer que 9 (Nove) é um filme que ultrapassa as grandes animações deste ano, como Up-Altamente! ou O Fantástico Senhor Raposo (The Fantastic Mr. Fox), mas é sem dúvida um filme que chega aos seus calcanhares. É certo que tem um teor mais experimental. Tem uma estrutura de narração pouco complexa e pouco sólida, o que se revê na sua curta duração. Contudo, é um filme sublimemente bem construído, tendo na sua estética e audácia moralista toda a sua originalidade.